Posterous theme by Cory Watilo

Governo da Paraíba quer desconectar comércio eletrônico

O Governo Estadual vê o comércio eletrônico como uma ameaça ao mercado local e, consequentemente, para o cofre estatal de tal forma que estuda sobretaxar a cobrança do ICMS, o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços, para produtos comprados através da Internet, seguindo o mau exemplo dos estados da Bahia, Ceará e Mato Grosso.

A iniciativa tenta evitar que somente os estados que têm centros de distribuição das lojas virtuais, principalmente nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, arrecadem o imposto. Em geral, propõe-se a divisão da cobrança do ICMS entre a origem e o destino da mercadoria. Na prática, o estado de origem continua realizando a cobrança cheia e o estado de destino cobra novamente o imposto do já castigado consumidor.

O efeito desejado pela medida é desestimular a compra eletrônica e dar fôlego para o comércio paraibano, aumentando, por tabela, a arrecadação do Governo da Paraíba. Tudo isto a um preço, no mínimo, injusto: punindo o eficiente comércio online e premiando o deficiente comércio offline paraibano, para ficar nos termos da própria Internet.

Embora aumente a arrecadação onerando a inocente população paraibana, não surtirá efeito prático para fomentação do comércio local. Digo inocente população no sentido latu da palavra: aquele que não cometeu ato ilícito, penal ou civil, apesar de existirem contra si acusações; aquele que não tem culpa.

O mundo é plano. Isto significa que a competição é nacional e global. Fingir que vivemos em uma ilha é recuar e fechar os olhos para o que acontece ao nosso lado. Globalização não é tendência, conforme estudávamos em geografia na escola, há tempos é uma realidade irreversível. Os consumidores almejam os melhores produtos pelos melhores preços onde quer que eles estejam. Quando o comércio da cidade não supre suas necessidades, a Internet resolve seu problema, apresentando preços melhores ou oferecendo produtos que não são comercializados na região, porque, se fôssemos depender apenas da boa vontade do comércio paraibano, estaríamos vários degraus atrasados em relação a outros estados. Os consumidores não têm culpa de quase sempre encontrarem o que querem ao alcance de um clique por valores mais razoáveis que no comércio da cidade. Penalizar o consumidor pelos efeitos benéficos e positivos da Internet, na verdade da globalização, é cavar um buraco no mundo globalizado que vivemos hoje e lá no fundo depositar a Paraíba.

Vejo a questão do comércio eletrônico através de outra perspectiva. O consumidor está progressivamente mais exigente e o impacto das lojas eletrônicas no comércio local acaba sendo positivo para ambos, porque os estabelecimentos são forçados pela concorrência global a melhorarem seus processos internos e externos, aprimorarem o atendimento ao cliente, diversificarem a oferta de produtos e buscarem fornecedores que concedam melhores condições, tornando-se empresas mais competitivas e de maior qualidade. A concorrência global aumenta o patamar de excelência de todos os envolvidos, do fornecedor ao vendedor. Na outra ponta, o consumidor percebe a melhoria da prestação dos serviços e obtém preços mais competitivos dos comerciantes.

Por outro lado, os argumentos para aumentar a competitividade do comércio local frente às lojas virtuais caem por terra quando consideramos o estado em sua totalidade, principalmente, o interior. O sertanejo sofrerá duplamente, porque a medida não estimulará o comércio local lá no Alto Sertão da Paraíba, que não está interessado em vender os produtos anunciados na Internet, e os bens comprados no comércio eletrônico ficarão mais caros.

Sobretaxar o ICMS, além de aumentar o preço do comércio eletrônico para os paraibanos, não garante a competitividade nem manutenção da qualidade no atendimento local. Basta lembrar que qualquer serviço sem forte e feroz concorrência é naturalmente ruim e caro. Lembre-se do tempo da TELPA, onde os telefones, de tão caros, eram declarados como bens no imposto de renda. A ampla concorrência entre as empresas de telefonia tornou o produto, inclusive a telefonia celular, acessível a toda população. Reserva de mercado sempre trouxe prejuízos. O aceno do governo nesta direção desconecta a população paraibana do acesso a produtos com preços competitivos.

            Passo a preocupar-me agora com a visão de desenvolvimento apresentada pelo Estado. Muitos materiais e insumos para estudo e trabalho são comprados pela população através do comércio eletrônico, inclusive produtos eletroeletrônicos, talvez os principais alvos da proposta do governo. Um notebook é ferramenta indispensável para empreendedores da área de Tecnologia da Informação, por exemplo. Sobretaxar a compra deste equipamento é criar mais barreiras para o desenvolvimento da nascente comunidade tecnológica empreendedora no estado, que, ironicamente, utiliza a mesma Internet para trabalhar, comercializar seus produtos e, consequentemente, pagar impostos para os cofres do Estado.

A medida de sobretaxar o ICMS ataca o efeito, a suposta perda em arrecadação, em vez da causa, pois o consumidor que não tem culpa nenhuma do Estado não conseguir atrair ou fomentar a criação de empresas de comércio eletrônico aqui, ao mesmo tempo em que serve de atestado de inaptidão para a conjuntura local, governo e comércio da região.

No final, o Estado alcançará a meta de aumentar sua arrecadação, mesmo que o ônus seja da população, uma vez que pagará duplamente pelo ICMS e novos empregos não serão gerados na Paraíba, porque os empreendimentos continuarão em outras regiões.

Tenho sensibilidade para compreender e solidarizar-me com a situação financeira difícil que atualmente atravessa nosso governo, que busca soluções imediatas para sanar suas finanças. No entanto, entendo que o Estado poderia fugir do lugar-comum, o aumento de impostos para aumentar arrecadação, e passar a pensar em soluções estruturantes permanentes para o futuro.

A primeira pergunta que o Estado deveria se fazer é: Que mecanismos deveríamos criar para tornar a Paraíba um expoente nacional no comércio eletrônico? Claro que não devemos nos esquecer dos empreendimentos já existentes, que nos leva a segunda pergunta: Como tornar as empresas paraibanas mais competitivas nos cenários local, estadual e nacional para fazerem frente à competição que vem de fora do estado?

A Paraíba precisa mais que um salto para alcançar o futuro. Precisa aprender a “clicar”, isto é, lidar com o avanço da tecnologia, compreender seus desafios e usá-la em seu favor. Já passou da hora do Estado apoiar fortemente nossos empreendimentos para passarmos a vender nossos produtos, inclusive pela Internet, aqui, em outros estados e pelo mundo afora. Aí, sim, aumentaríamos legítima e orgulhosamente a arrecadação de impostos na Paraíba. 

Prof. Alan Moraes - UFPB

Ainda sobre a suposta bolha imobiliária e a melhoria de vida do brasileiro pobre

Em primeiro lugar, a discussão adequada não é se está caro ou barato, mas se está acessível ou inacessível. Pode ser barato, mas, se não posso comprar, então está inacessível para mim. De que adianta?

Vou dar um exemplo pessoal. Em Junho de 2008, um apartamento de 75m² foi vendido, no prédio que morava, por aproximadamente R$ 60.000,00. Na época, achei caro. Na verdade, o apartamento estava inacessível para mim, porque nem tinha o dinheiro à vista para comprá-lo, nem era possível financiá-lo. Hoje, olhando-se para trás, veremos que estava uma verdadeira pechincha para quem tinha dinheiro ou crédito para comprá-lo. Em Dezembro de 2009, comprei meu apartamento com 69m² na rua ao lado por R$ 93.000,00. Desta vez, não estava necessariamente barato, afinal houve um aumento de 68% no preço do m² em relação ao apartamento semelhante, não é? Entretanto, desta vez, estava acessível, porque minha carta de crédito aumentou, os juros baixaram e a prestação ficou ligeiramente, quase nada acima do valor do aluguel na região, porém aceitável.

Então, a conclusão é que não importa se está caro ou barato, importa se o bem é acessível ou não. Com abundância de crédito, a correção dos imóveis veio como consequência. O que antes custava R$ 60.000,00 e ninguém podia pagar subiu para R$ 90.000,00 com todos podendo comprar. 

Agora sobre o efeito cascata inversa questionado por você. Em consequência do crédito abundante e elevação imediata (correção, em minha opinião) dos preços dos imóveis populares, por que alguém, em sã consciência, compraria um apartamento na periferia se há um na praia com o mesmo custo? Concorda comigo que, estando ambos os preços iguais, haverá uma forte demanda, que você tanto quer ver, para imóveis na praia? A demanda não chega a se concretizar na prática porque morar na praia, em condições normais, sempre será mais caro que morar na periferia, porque a localização é mais nobre, dentre outros motivos. Logo, o aumento de preços de imóveis populares empurra para cima os valores de imóveis nobres. Veja que o inverso não necessariamente é sempre verdadeiro no setor imobiliário ;-) 

É importante frisar que imóvel em área nobre sempre foi inacessível para grande parte da população e não há motivos para deixar de ser, haja ou não crédito na praça. Sem falso moralismo, é a segregação da sociedade através do dinheiro. Vamos a um exemplo claro: condomínios horizontais. Em João Pessoa está começando uma onda de condomínios horizontais. Estão pegando enormes terrenos em locais afastados, comprados a preço de banana, e vendendo por preços elevadíssimos sem qualquer justificativa para valorização. A elevação de preços faz-se única e exclusivamente mente para selecionar a vizinhança. O que é Jurerê Internacional, aí em Florianópolis, senão isto? 

Além disto, não sei se você está misturando com o mercado de ações, onde a subida de um papel não necessariamente afeta a curso de outro. Pode até haver comportamento semelhante quando as ações são do mesmo setor, mas o preço da Petrobrás não deveria ser afetado quando as ações da Ambev sobem repentinamente por causa de alguma notícia exclusivamente relacionada a ela. Ou deveria? Acho que não. 

Negociar imóvel é diferente de negociar ações, onde você negociará independentemente do preço da ação. Se as ações sobem muito, então você compra menos lotes, mas compra e negocia. Se as ações estão baratas, você compra mais lotes, porém compra e negocia do mesmo jeito. Se o preço de uma casa sobe, você não tem a opção de comprar 70% dela.

Por último, TVs e outros bens de consumo e financiamentos. Talvez você esteja passando pelo espanto que passei há poucos dias. Dia desses estava tentando me desfazer de um suporte para TV convencional, destas mais antigas de tubo. Aí conversei com o zelador do prédio para saber se ele teria condições de vender o troço para mim. A resposta dele foi:

- Ah! Ninguém vai querer isto, não. Hoje todo mundo tem TV pregada na parede!

Coincidentemente, ontem estava em uma loja de eletrodomésticos. Enquanto passava em frente as TVs convencionais, uma senhora passou por trás de mim falando algo assim:

- Nem! Não quero mais desta TV antiga, não! 

É moda ter TV de LCD. E mais: pode-se ter um aparelho destes, pois o custo está baixo e a população pode pagar. Proporcionalmente, quanto custava uma TV CRT 20" antigamente? Tenho lembrança de meu pai comprando duas em 1996 por R$ 600,00 cada, acho. O salário mínimo era R$ 112,00 na época. Então uma TV moderna para a época custava cerca de 5,5 salários mínimos. Hoje uma TV LCD 32" custa R$ 1.500,00, enquanto o salário mínimo são R$ 510,00. Logo, a TV custa aproximadamente 3 salários mínimos. Ou seja, está mais barata.

Houve aumento real do poder aquisitivo e, por conseguinte, do padrão de vida da população. Além de TVs modernas, vejam os celulares usados pelo povão. Observem que muitos já têm assinatura de TV a cabo e acesso à Internet banda larga. Estes itens vieram por conta da melhoria de condições nas camadas mais baixas. Sabe quando dizem que a quantidade de pessoas na classe média aumentou? Pois, é. É verdade. O povão está subindo na vida de verdade.

Além de melhorar de vida e ter acesso a vários bens de consumo, agora se tornou acessível comprar a tão sonhada casa própria. Não é à toa que o mais recente plano da Caixa chama-se "Minha Casa, Minha VIDA". É apelação mesmo para o emocional :-) O sonho ainda é muito forte em nossa sociedade. Tenha certeza que há famílias estão fazendo alguns sacrifícios para sair do aluguel, sem dúvidas. No entanto, a maioria da população está comprando com os pés nas costas. 

Vão atrasar uma ou outra prestação? Sim, da mesma forma que atrasavam o aluguel. O imóvel será tomado e leiloado imediatamente, despejando milhares de famílias nas ruas? Nem a pau, Juvenal! Neste sentido, acho que deva ser até mais fácil e cômodo dar calote na CAIXA...

Particularmente, não me importava em pagar aluguel. Mas, se posso ter a minha casa ao preço de pagar um aluguel, por que não aproveitar a oportunidade? E nem venham dizer que só mudei a quem estou pagando os juros, isto é, deixei de pagar aluguel ao proprietário do imóvel para pagar juros ao banco. Ao final de muitos anos, depois de tudo, o imóvel será meu. No meio tempo, posso reformá-lo e deixá-lo ao meu gosto, mudar as cores das paredes (não imagina o quanto eu era traumatizado por morar em um apto. cor salmão desbotado e não poder pintá-lo de branco...), mandar fazer móveis planejados, dar palpite nas benfeitorias do condomínio, etc. Por quê? PORQUE É MEU.

Tenho a impressão que boa parte da população pensa exatamente como eu, principalmente, no que escrevi no parágrafo acima. Se financeiramente falando é um bom negócio ou não, se alugar é mais barato que comprar, se está caro ou não, aí já são outros quinhentos. Mas que a população agora pode – e antes não podia – comprar um imóvel, tenho certeza absoluta.

Ah! Também tenho certeza absoluta que alguém vai se torar no meio quando o crédito cessar. Entre construtoras e clientes, penso que os clientes, mais que as construtoras, levarão um puta baque e amargarão prejuízos enormes em um dado momento, muito rápido por sinal. Daí para estourar uma suposta bolha e os preços despencarem, já são mais outros quinhentos, talvez outros milhares...

* Originalmente em resposta ao texto “A bolha imobiliária estoura em 3 meses”, de Elvis Pfutzenreuter, publicado no www.ClubedoPaiRico.com.br, disponível em <http://www.clubedopairico.com.br/colunistas-a-bolha-imobiliaria-estoura-em-3-...